Impressões de Luanda

em 20/10/10

Fernando Alvim curador da 2ª Trienal de Luanda, é acima de tudo um artista e dinamizador da arte africana, pensa a cultura como um instrumento de alta tecnologia!! Sim, ele sabe o que fala: "É urgente um wireless cultural", diz. Quando um repórter perguntou ao Alvim, qual o impacto do Pavilhão Africano na 520 Bienal de Veneza, para a situação artística africana. Ele responde muito simplesmente: "A questão seria perceber qual o impacto da presença africana na Europa e na Bienal de Veneza? Em Angola os artistas e os produtores culturais estão conscientes da importância da cultura no país e em qualquer sociedade do mundo." É verdade, eu pude ver. Junto com Dainel Rangel, curador baiano, levaram artistas com corações cheios de África para compor a Mostra 3 Pontes, e nos fez ver uma África contemporânea e deslumbrante na Trienal de Luanda!

Primeiro dia em Luanda, final da tarde.

Um sorriso bobo tomou conta de mim desde que entrei no avião, agora, já em Luanda estou completamente abobalhada.  De onde vem esta sensação de relaxamento e alegria, me pergunto. Talvez o germe esteja no muchicho da Dona que sentada na minha poltrona escutava cheia de olhos, bocas, trejeitos  e nenhuma palavra o comissário explicando que ela podia sentar-se, sim, em qualquer acento livre, mas só depois que encerrasse o embarque. Ela se retirou, mas não foi fácil não, nem objetivo. Objetivo me parecer ser uma palavra ainda embrionária aqui, teria a forma de uma anêmona, moldável, mutável, e facilmente apropriável. Aqui existem metas e tudo que cabe entre ela e o seu fim.

Mas o comissário... O comissário falava com um mimo, um mimo com a Dona Teimosa. Não sei, um jeito de se comunicar restrito as crianças e já quase tão raro. Não sei, não sei... sinto frescor  E os corpo com descrevê-los? Sentada no aeroporto, corri os olhos por 3 horas de relógio, na espera de Daniel, meu companheiro de viagem, que ficou detido na imigração -mesmo nome de um bandido brasileiro que fez grandes estragos em Angola. Daniel já sabia do caso, eu não, fiquei preocupada.

Mas Américo, sujeito muito atencioso que  já nos esperávamos com a plaquinha Fundação Sindiko Dokolo, logo me tranqüilizou. De toda forma, a minha retina agradeceu ao bandido e raiou o dia a observar as pessoas que circulavam no aeroporto. Tinha um rapazinho ao meu lado que dormia sentado, e que a cada solavanco de Orfeu o seu corpo pendia para frente e elegantemente voltava atrás. Ele tinha boca de peixe e uma postura, meu deus, que dignidade. Dignidade é a força angolana. E um outro jovem, imóvel como uma escultura, dançava!!! Me perguntei: Como, mesmo sem um único gesto, dormindo, um corpo pode dançar? Talvez, enquanto dorme os espíritos aproveitam para fazer festa ao seu redor, conclui.  Aqui em Luanda tudo é cheio de alma. Tudo escapa a forma há um invisível que te acena.

Estou num belo hotel, recém inaugurada em Luanda, aliás tem muitos, muitos edifícios a serem inaugurados aqui. Luanda é um grande canteiro de obras, grandes construções high tech  frente a frente com a pobreza, sem periferias, melhor assim. Bons presságio para os angolanos?! Não sei... Mas algo no meu peito insiste em acreditar que vamos ainda ouvir falar da África como nunca imaginamos!!!! África é futuro. Ah! E a mão de obra é chinesa, um acordo político. De cócoras africanos e chineses, trocam olhares vibrantes, articulam gestos e juntos num acordo sem língua nem fronteira torcem pelo futebol, como um único povo vibram freneticamente. E claro! Já nascem os chilatos, que crianças lindas!!!! Viva a força da contaminação!!!

Os camareiros do Hotel, quando saí para caminhar, estavam em um grupo de cinco muito bem fardados, sentados no chão, no chão do Hotel 4 estrelas, em frente ao meu quarto conversando sobre a vida, os sentimentos, os amores. Frouxos, sem frescuras e sem etiquetas, alegres, inteiros em comunhão nos saudamos. Quando voltei da caminhada, demorei, ainda estavam lá. Talvez um segundo intervalo, acredito. A mocinha viu a minha dificuldade em abrir a porta, levantou-se do chão e abriu sorridente. Demorou uns 4 minutos, ela entrou no meu quarto com frutas servido em louça, talheres e guardanapos finérrimos. Sem licença e com carinho me ofereceu. Sorri. Aqui se come muita fruta, já dá pra ver. No quarto do hotel fui recebida com frutas, a mocinha me deu frutas, na rua moças vedem frutas e o segurança chupa manga com dedos amarelos de caldo. Ah! E nas esquinas, mulheres vedem banana na grelha. Lembrei de Cleusa, amiga que sonha em ter um restaurante cujo prato principal seja banana grelhada. Invenção de Sandra, baiana que bem podia ser africana.

Em Luanda o tempo é outro, há espaços dentro dos espaços. A sensação é que os lugares respiram, o Hotel está vivo.

Aqui é terra de realezas, posso dizer, em todos os gestos há nobreza: no volante, nas esquinas sentados no chão, com cestas de frutas na cabeça, crianças amarradas nas costas, com roupas made china combinadas e dispostas com muita propriedade emanam dignidade. Magia em meio ao caos do trânsito, dos transeuntes, das sinaleiras que não funcionam, das obras e poeira que sobe.

Hoje perambulei multiplicando-me em cada olhar. Nenhum olhar falta. É uma luz que atravessa entra no fígado, no coração, rins, artérias, moléculas e sacudindo teu corpo te faz erguer os ossos e mexer os quadris. Saltito.

Toda hora, nas esquinas de Luanda chega o subúrbio de Salvador, vem Jaciara, Neguinha, Quinho, as travestis e todo espécie de felicidade que encontrei nestes percursos. Luanda, como as plantas da família Ranunculaceae, apresenta grande plasticidade de formas e é rica em possibilidades de metamorfose. A rigidez pedante lhe é totalmente estranha.

3 Pontes / Artistas:
Anderson AC, Ayrson Heráclito, Ana Dumas, Ayrson Heráclito, Caetano Dias, Christian Cravo, Dedé, Denis Sena, Eneida Sanches, Flávio Lopes, Gaio Matos, Iêda Oliveira, Marcondes Dourado, Marepe, Mario cravo Neto, Maxim Malhado, Naum Bandeira, Sarah Hallelujah.

Fotos: Ana Dumas / Denis Sena / Anderson AC / Virginia de Medeiros / Renato Lins/ Sarah Hallelujah

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