Catarina rumo à África

em 22/09/10

O Brasil inventou o sertão que queria, mas o sertão há muito se sabia e já estava aí quando nem história existia. Assim, é lugar de fábula, de alegoria, é o lugar do olhar que descobre no fundo da caverna a luz que cria a sombra e o dia.
E foram os gregos sertanejos que criaram a filosofia.
O sertão tem a música dos chocalhos plangentes e parabólicas que se sustentam na taipa mais antiga.
No sertão, deus e o diabo rodopiam.
Sendo assim, como pode ser periferia algo que está no peito, coração bombeando seu sangue para as artérias, no Brasil, na Rússia, na África, na Inglaterra?! E não, me venha com backlands, vaqueiros de iPod, selvagens da motocicleta!
O negócio é sertão mesmo, com todas as letras e sotaques, babel indiscreta.
Para alem do Alentejo, o sertão é jangada jogada num mar de pedras. E não se engane não, profeta, ele não vira mar, ele vira mundo, mundo em espera.

E hoje no século pós-tudo o sertão é que é a grande invenção.
É o ponto eqüidistante entre o que se fala e o que se desconhece.
É o ponto eqüidistante entre o espelho e o que não se reconhece.
O sertão, esse corpo multiforme, é o ponto eqüidistante entre o que é dito e o que passa despercebido. Talvez por isso a melhor imagem seja a da ponte. Porque o sertão é caminho do meio entre o meio e o homem.

Com alguns fragmentos da sensível crônica de Micheliny Verunschk compartilho que a vídeo instalação "Fala dos Confins", uma pequena artéria do sertão, segue cheia "causos" para África, integrando a II Trienal de Luanda "Geografias Emocionais, Arte e Afectos" - Projeto 3 Pontes.

O convide para a Trienal veio com a solicitação de realizar uma nova versão da obra, devido à inviabilidade de levar a Catarina, a Kombi. Pensei: Queria tanto levá-la, mas como? Então coloquei a meu desejo para Fábio Marins arquiteto, amigo, artista delirante. Que muito simplesmente me afirmou: "Você tem como levar Catarina para África, sim." Uma imensa interrogação saltou dos meu olhos. Ele completou "Vamos fazer uma réplica. Uma Catarina cenográfica." Assim partimos para o projeto. A Kombi vai ser fotografada, recortada e plotada em compensado. Assim as pessoas poderão entrar na réplica como se estivessem entrando na própria Kombi, e se deslocarem ao som dos "causos" sertanejos pelos campos e estradas que alimentam o imaginário e a fala do homem do sertão. Este projeto foi apresentado juntamente com Catarina na Galeria Soso +, Av. São João em São Paulo, integrando a exposição Segunda Ponte composta por trabalhos da nova geração de artistas visuais da Bahia que participará da Trienal.
 

 

Pedro | novembro 25, 2010 às 15h04
Perfeito!
Izaias Junior | outubro 27, 2010 às 01h51
Que maravilha Virgínia!!!!!!!!!!! Idéia formidável...... Qual será a próxima aventura da Catarina???? Bjsssss
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